Caminhar pelas ruas de Tenochtilán, a antiga cidade asteca, é uma experiência surreal: A cidade do México, hoje também chamada de Distrito Federal, com mais de 22 milhões de habitantes, é um verdadeiro caldeirão de cultura, formado por uma rica mistura de história, artes e sabores. Cidade onde pirâmides milenares, construções coloniais, igrejas e arranha-céus de vidro e aço dividem o mesmo espaço, fazendo que a cidade cresça e viva como testemunha do tempo, uma verdadeira guardiã de memórias.
Se a cidade do México pudesse falar, certamente nos contaria sobre a chegada dos espanhóis em 1521, e seu espanto ao defrontar com a cidade flutuante, construída pelos Astecas sobre o lago Texcoco. Em seguida falaria sobre a brutalidade e intolerância espanhola durante os quase 300 anos de colonização, quando os Astecas, bem como sua cultura e templos foram praticamente dizimados.
Continuaria falando, com orgulho, da atuação heróica de Miguel Hidalgo em 1810 brindando ao povo Mexicano a independência tão sonhada da coroa espanhola, ou, em seguida, da chegada em 1914, de Pancho Villa e Zapata, junto com milhares de outros homens, á pé ou á cavalo durante a revolução mexicana e seus esforços para formar um Estado mais justo e prospero.
Sem dúvida, a Cidade do México também nos falaria de futebol: Lembraria, em alto e bom som, da atuação de Pelé, na copa do mundo 1970, quando foi coroado Rei do Futebol, para em seguida, murmurar nos mínimos detalhes, “A Mão de Deus”, famigerado gol feito por Maradona, utilizando as mãos, na copa do Mundo de 1986.
Finalmente, se pudesse falar, a Cidade do México lembraria com tristeza os milhares de filhos que perdeu, durante a trágica manhã de 19 de setembro de 1985, quando um forte terremoto sacudiu suas terras, e fez ruir milhares de prédios e edificações, levando nesse instante um pouco da sua história.
Apesar dos graves problemas enfrentados, com um nível de miséria alarmante, tráfegos intensos e caóticos, estatísticas de desemprego e insegurança que não param de crescer, a população desta cidade dificilmente imagina uma vida fora daqui: há algo sobre esta cidade que a torna única. Talvez o sabor dos tacos, tamales, quesadillas e tequila; talvez o exótico sabor do guacamole ou das suas pimentas. Talvez o colorido estampado nas roupas e nos sorrisos mexicanos.
Eu não sei.
O certo é que para os próximos anos, o governo mexicano enfrentará o desafio de não deixar estar cidade sucumbir em problemas socioambientais, mantendo sua magia e espírito milenares, e ainda, melhorando a qualidade de vida de seus habitantes, após um século de crescimento acelerado. Eu, por uns instantes, fui testemunha de uma cidade e suas memórias.
¡Arriba México!
Por Daniel Frasson Costa
Daniel Frasson Costa
Eu já fui simplesmente Daniel, já fui Dani, Dandam, DannyBoy. Já fui também Daniel-meu-mel. Já fui o último, depois o milésimo, e depois o segundo. Nunca fui o primeiro. Hoje sou Daniel Frasson Costa, alto e meio gordo, e isso eu serei para sempre, com certeza.
Já tive medo do escuro e do chupa-cabra. Dos mortos vivos então, nem se fala... Já tive vontade de ser careca, ou ter cabelo enrolado e comprido. Hoje ele é curto, preto-opaco-olheoso, e eu sei quem gosta dele, bagunçado, arrepiado ou só penteado. Já reclamei de não ter o que vestir. Hoje... tenho mais o que fazer.
Já fui de ki-chute para a escola, mas nunca de chinelo. Já fui fã de pulseiras, daquelas pretas de plástico. Já usei colar, já quis usar brinco, mas nunca tive coragem. Já tive também um anel com uma caveira. Já desejei ter tatuagem pelo corpo e um óculos escuro. Hoje, quero usar sapato todos os dias e descobri que fico bonito de calça social, e terno e gravata nem é tão ruim assim. Mas eu ainda não usaria sandálias.
Já comi metade um pacotinho de chocolate granulado de uma vez só, e depois não quis comer por vários dias. Já me achei gordo, e fiz musculação. Desistia sempre na primeira semana...
Já andei de ônibus, táxi, trem, metro e avião. Já andei a pé e de bicicleta, de barco e de carroça. Hoje eu ando de carona, e um dia, eu vou andar de balão.
Já fiz aula de teatro, curso de palhaço e de marcenaria. Já desfilei no 7 de setembro vestido de índio. Já cantei e chorei debaixo do chuveiro. Já tive vontade de pular de pára-quedas.
Já caí de bicicleta, de patins. Já caí de skate, da escada e já caí das nuvens também. Tentei roubar umas cores do arco-íris. Conheci pessoas maravilhosas. Aprendi com as minhas decepções, chorei de dor e de alegria. Já tive mais esperanças. Hoje continuo dando meus tropeções...
Já quis ter um restaurante, ser astronauta, veterinário, médico e cientista. Até ser jogador de futebol. Já quis ser professor e, por algum tempo, eu fui. Já tive minha própria empresa, e hoje espero ser executivo. Amanhã não sei...
Já sobrevivi nos USA, experiênciei no Japão, visitei a Argentina, e Europa. Já morei com um chileno, um peruano, um búlgaro, duas romenas e quatro tailandeses, um monte de chineses, um alemão, uma russa, uma francesa. Tailandeses, filipinos, coreanos, americanos e canadenses.
Já chorei porque ninguém gostava de mim. Já fugi para o mundo e deixei a vida me levar. Já brinquei de Banco Imobiliário, nunca de WAR, e não sei jogar cartas. Já dormi abraçado com um elefante azul de pelúcia.
Já senti saudades de momentos, lugares e pessoas. Hoje sinto saudades até do que não aconteceu.
Já fiz muitos planos, mas, hoje, descobri que é melhor dar um passo de cada vez, mas sem deixar de sonhar. Já achei que muita coisa era pra sempre e, algumas delas, ainda são, sempre serão... aconteça o que acontecer.
Já descontei mau humor em quem não merecia, e depois pedi desculpas. Já tomei decisões por impulso, e nunca, ate hoje, me dei mal. Sempre pedi desculpas quando estava errado e aprendi que é justamente o “sem querer” que tanto machuca.
Já tive vergonha de dançar. Hoje é uma das coisas que mais gosto de fazer, embora sempre me digam que meus movimentos são desengonçados. Já reclamei de tanta coisa que deveria agradecer. Já não fui com a cara de tanta gente e hoje descobri que elas são tão legais...
Já corri pelado na neve e já quis fugir de casa.
Já quis tomar um IAKUT de litro e correr de um trem. Já acreditei menos em Papai Noel e em Coelhinho da Páscoa. Hoje tenho certeza que eles existem. Já corri atrás de bola e já chutei o chão. Já fui um guri um moleque, uma criança... Hoje sou homem, maduro, feito e capaz, mas na sua frente... Pareço um menino.