Dachau, um inferno gelado
Publicado em: 26-04-2010 | Por: Daniel Frasson Costa | Em: Atualidades, Comportamento, História
Tags:Dachau, História, Imigrantes
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“Arbait macht frei”, ou “O trabalho o tornará livre”. Essa é a frase que coroa as portas de entrada ao inferno e causa uma arrepiante sensação quando defrontada.
Antes, pensei que o intenso frio e os fortes ventos haviam me trazido esse efeito apavorante. Agora tenho certeza que não.
O inferno em questão é DACHAU, um campo de concentração nazista localizado ao norte de Munich, e a sensação aterrorizante foi causada ao saber que, acabava de cruzar a mesma porta pela qual passaram mais de 200 mil pessoas nos anos de guerra, e que ali foram torturados e mortos.
Apenas alguns metros da entrada principal, um amplo pátio, recoberto por pedras e neve, nos receberam friamente, assim como faziam com seus prisioneiros, impôs um pesado silêncio ao grupo de turistas, que pouco falava. Estávamos chocados com que víamos: todo o espaço era cercado por uma parede dupla, separadas por cinco metros e um fosso uma da outra. A primeira parede era um alambrado, de arames farpados, mortalmente eletrificados.
A segunda parede, de tijolos e concretos, abrigava em sua parte superior pequenos mirantes, normalmente com dois soldados nazistas, devidamente munidos com uma metralhadora (armadas e carregadas); cada um incumbido de vigiar um horizonte do muro, providos de ordens claras, para executar qualquer prisioneiro que se aproximasse da cerca.
Normalmente, esse era o trabalho de um jovem soldado, ainda inexperiente, entre 18 e 20 anos de idade, que recebia como incentivo (e beneficio) um dia de folga para cada cativo que executasse perto da cerca.
Esse mesmo pátio abrigava a contagem diária dos encarcerados: Às seis horas da manha, os prisioneiros de Dachau, deveriam estar vestidos, eretos, com as mãos junto ao corpo e cabeça baixa, posicionados no pátio. Normalmente a contagem tardava duas horas, pois o oficial nazista responsável pela operação começa seu dia de trabalho apenas às 8horas da manha. Às vezes, a contagem tardava 4, 6 horas; outras vezes 10. Certa vez, a contagem dos prisioneiros, tardou 22 horas.
Ao final desse dia, ao final dessa contagem, mais de 350 prisioneiros não regressaram á alcova. Seus corpos simplesmente ficaram inertes no chão. Estavam mortos. Alguns deles morreram de frio. Outros de fome. Na sua maioria, foram assinados, porque não estavam bem vestidos, ou porque levantaram a cabeça, porque falaram, ou por qualquer outro motivo estúpido que você queria imaginar. Motivo pelo qual foram sentenciados á morte.
Um pouco mais a frente estavam os escritórios que cuidavam das operações administravas do campo. Uma dessas operações era justamente receber novos prisioneiros: Fomos recebidos em uma ampla, gelada e escura sala. As portas eram grandes; ao fundo pequenas janelas, com grades, permitiam que um precário fio de luz entrasse e nada saísse. Havia quatro mesas de madeira. Duas à direita e duas à esquerda. Nessas mesas, soldados nazistas, recolhiam todo tipo de pertences que os ingressantes poderiam ter: Confiscavam identificações, registros de nascimento e casamento, passaportes, ou qualquer outro tipo de documentação que pudessem distinguir uma pessoa. Apreendiam seus pertences materiais: relógios, brincos, anéis, colares, pulseiras, medalhões, fotos, roupas e tudo mais que portassem. Tudo era amontoado no canto da sala. Nesse momento, despidos, ouviam de um soldado, que já não eram professores, estudantes, médicos, músicos, advogados ou engenheiros. Acabavam de perder o direito de propriedade material, de liberdade e de um julgamento justo: Tornavam-se prisioneiros de guerra, prisioneiros de Dachau.
Nessa mesma sala, o grupo se dividia em dois: velhos e doentes de um lado. Homens saudáveis e crianças do outro. Cada grupo passaria por uma das portas ao fundo da sala. O grupo de velhos e doentes era dirigido á porta da direita que conduzia á um espaço um pouco menor do que a primeira sala. Não havia janelas. Não havia sinal de saída. A sala era inteiramente fechada. O teto muito mais baixo, de onde pequenos tubos pendiam. Estavam por toda parte. Era uma câmara de gás, onde seriam executados. Pela outra porta, o restante do grupo tinha os cabelos raspados e passavam rapidamente por uma corrente de água fria (o último banho para muitos); recebiam um uniforme de listras azuis e cinzas, para enfim começar uma vida de medo e terror em Dachau.
A saída desse prédio levava ao fundo do pátio, de onde se vê dezenas de galpões. Quarenta, talvez cinqüenta, galpões distribuídos um a frente do outro, formam um amplo corredor. Um pequeno vilarejo, onde mais de 50 mil pessoas viviam. Entramos mudos em um desses depósitos: suas finas paredes não impediam que a frio dominasse o ambiente. Carregados de janelas (dezenas delas), permitiam que os prisioneiros fossem vistos e vigiados o tempo todo. O espaço interno, úmido e gelado, era vasto, abarrotado com estruturas de madeira; uma espécie de triliche fazia a vez de camas. Ali viviam, dormiam e morriam os infelizes habitantes de Dachau.
Nesse mesmo espaço, a única refeição do dia era servida: um caldeirão com água e alguns pedaços de legumes (batata e cenoura na maioria das vezes), chegava sempre ao meio dia. Uma fila era organizada. Quando uma refeição como essa é servida, você não quer estar, nem no começo, nem ao final da linha. Os primeiros receberão basicamente água. Os últimos, com sorte, receberão algum alimento. Sabendo disso, o que se via, não eram tumultos ou tentativas de tirar algum tipo de proveito da situação. O que se via, eram os últimos vestígios de respeito e altruísmo do local brotar: os aprisionados organizavam-se de tal forma, a colocar os mais fracos e doentes no centro da distribuição, permitindo-lhes receber a melhor parte da refeição. Pode não parecer muito, mas um pedaço de batata ou cenoura em dias de guerra salvava e defendia vidas.
A direita desse galpão, por uma das muitas janelas, pode-se ver o horizonte cinza do céu, dividindo espaço com algumas árvores e três altas chaminés. Começamos uma longa caminha nessa direção. A cada passo, um barulho estranho ecoava das pedras. A cada passo, pareciam gritar de dor. O vento gelado rasgava a pele do meu rosto sem piedade. As chaminés tornavam-se cada vez maiores, mais altas e escuras. Estavam instaladas acima de um pequeno prédio de paredes com tijolos á vista. Detalhes em negro e vermelho nas ferragens e janelas traziam um pouco de elegância ao local. As portas de madeira, com alguns detalhes entalhados, espalhavam-se nas pontas e ao centro do edifício, exatamente abaixo de cada uma das chaminés. O magnetismo do local foi pulverizado quando entendi o que via: estava diante dos famigerados fornos de Hitler. Ali foram executados mais de 50 mil prisioneiros, queimados ainda vivos. Outros 150mil corpos forma incendiados. Uma náusea tomou conta do meu corpo. Minha cabeça doía.
Nosso guia, o artista húngaro judeu Nandor Glid, um senhor com 82 anos, alto e magro, pele branca e olhos claros, pouco cabelo e muitas rugas é um sobrevivente do campo de Dachau e seguiu suas explicações, informando que as cinzas dos executados no campo (incluindo seu pai, irmãos e primos) foram espalhadas pelo campo. Forma que os Nazistas encontraram para tentar ocultar suas loucuras e brutalidades. Todos entre olharam-se assustados. Todos olharam para nossos pés. O ar frio se misturou com um sentimento de revolta. Nador Glid finalizou seus comentários com um pedido: “Quero que voltem para casa, e assim como as cinzas (dos assinados) se espalharam por Dachau, quero que espalhem o que viveram aqui. Quero que vocês sejam testemunhas do que eu vivi aqui e jamais tolerem que isso volte a acontecer”.
Finalmente deixei para trás Dachau, para finalmente trazer Dachau até vocês.
Dachau foi o campo de concentração que mais tempo funcionou durante o regime nazista: aberto em 22 de marco de 1933, poucas semanas após Adolf Hitler assumir o comando do governo alemão, o campo concentrou, no seu inicio, presos e opositores políticos, pequenos golpistas e homossexuais, somente para em 1938 receber os primeiros judeus. Justamente por seu inicio precoce, Dachau serviu de modelo para os campos que surgiriam posteriormente, e como escola preparatória á guarda pessoal de Hitler, Shutz Staffel (SS). Dachau foi liberado pelo exercito norte americano em 21 de Abril de 1945, pela tarde.
Por Daniel Frasson Costa

















