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A crise financeira e as leis de Newton. Existem coisas em comum?

Publicado em: 17-02-2010 | Por: André Fabre Ballalai Ferraz | Em: Atualidades, Finanças, Política

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Quando o produto da elevada concentração das instituições financeiras pelo agressivo crescimento, experimentado nos anos de ouro da década de 2000, superou a resistência das conexões (fragilizadas pela inércia das regulações bancárias) o efeito ação/reação desencadeou uma expressiva força contrária ao movimento global.

As pessoas e governos, iludidos pelo equívoco do referencial inercial, foram arremessadas contra a parede, sem mesmo entender o que aconteceu.

Parece uma frase complicada misturando economês do jornal e aulas de física do segundo grau. Porém, o Macroeconomic Insights tem a premissa de traduzir o economês para a linguagem do dia a dia.

  • 2a Lei de Newton – “A resultante das forças que agem em um corpo é igual ao produto de sua massa pela aceleração adquirida”.

Ou seja, quanto mais “pesado” e “rápido” é um trem, mais difícil será freiá-lo e conseqüentemente mais impacto causará em uma colisão. Em resumo, força = massa x aceleração.

“Quando o produto da elevada concentração das instituições financeiras pelo agressivo crescimento, experimentado nos anos de ouro da década de 2000…”

De 2003 a 2007 o mundo observou um movimento de consolidação nos mercados financeiros. O sistema bancário concentrou-se em algumas poucas instituições, e a partir disto, o termo “too big too fail” começou a ser relevante.

A possibilidade de instituições como estas irem a falência colocaria todo o sistema em risco, podendo resultar em pânico generalizado (em economês isto se chama “risco sistêmico”). Na analogia com a física, os bancos ganharam “massa”.

Paralelamente e também resultado da consolidação do sistema bancário, o advento dos derivativos e da alavancagem proporcionou aos mercados crescimentos rápidos e agressivos. Isto é, os bancos ganhavam “aceleração”, e ganhavam rápido.

  • 1 a Lei de Newton – “Todo corpo permanece em seu estado de repouso ou de movimento retilíneo e uniforme, a menos que seja obrigado a mudar seu estado por forças a ele impressas.”

Ou seja, se ninguém lhe empurrar você permanece parado, se você estiver correndo e ninguém lhe barrar, você continua correndo. Este é o conceito de Inércia.

“…superou a resistência das conexões (fragilizadas pela inércia das regulações bancarias)…”

O grande dilema dos bancos centrais atualmente é saber “o que esta acontecendo”. Responsáveis pelo controle da política monetária (quanto, onde e custo do dinheiro na economia), os BC`s detém instrumentos para monitorar (e controlar em tese) a quantidade de moeda na economia, o percentual de alavancagem dos bancos, o custo do dinheiro (a taxa de juros) entre outras coisas.

Por estarem atrelados à legislação, política e debates estes instrumentos não acompanham a velocidade e o dinamismo da economia moderna. Assim, as conexões que formam a malha do sistema financeiro global (cada dia mais capilar e inter-relacionado) construíram um cenário perigoso.

O sistema de regulação não conseguiu prevenir que essa malha torna-se frágil nem prever o momento que ela viria a se romper.

  • 3 a Lei de Newton – “Para toda força aplicada, existe outra de mesmo módulo, mesma direção e sentido oposto.”

Para toda ação existe uma reação contrária na mesma intensidade. Se puxar uma corda, na ponta oposta existe a mesma força, em sentido contrário. Se a corda romper-se repentinamente…

“…o efeito ação/reação desencadeou uma expressiva força contrária ao movimento global.”

Os bancos ganhando mais músculos (lembre-se da 2 a Lei) a força de tração na malha do sistema financeiro também tornou-se ponto de atenção. Em uma analogia, é como se várias pessoas estivessem amarradas e correndo para lados opostos.

Enquanto, nos lados opostos, as pessoas fizessem a mesma força, e a corda agüentasse a tensão, todos permaneceriam parados. Se alguém cansasse ou cometesse um erro, o sistema se desbalancearia e todos cairiam.

O grande problema foi que os bancos não “cansaram”, e sim, continuamente aplicavam mais tensão à malha. O que ocorreu foi o rompimento das cordas, uma a uma em efeito dominó. O efeito reação veio com a mesma força que impulsionava o sistema, porém contrária.

  • Princípio da relatividade especial – “Se um sistema de coordenadas K é escolhido de tal forma que, em relação a ele, as leis da física se apresentam com a forma mais simples, as mesmas leis são válidas em relação a qualquer outro sistema de coordenadas K’ se movendo em translação uniforme em relação a K.”

Este é o referencial inercial. Se você esta em um trem sentado, a princípio pode lhe parece que está parado, porém para alguém que esta fora do trem, você esta na mesma velocidade que ele.

“As pessoas e governos, iludidos pelo equívoco do referencial inercial, foram arremessadas contra a parede, sem mesmo entender o que aconteceu.”

Para todos que, aparentemente, estavam fora da malha do sistema financeiro, as coisas corriam muito bem. O mundo crescia de maneira sólida, os países aumentavam as relações comerciais e os governos aproveitavam a prosperidade econômica para discutir outros assuntos além do sistema financeiro.

As “pessoas normais” e os governos não enxergavam a situação, por que estavam dentro do trem. Todos (ou quase todos) temos contas em bancos e a economia real esta ligada diretamente aos investimentos.

Quando existe segurança, os investidores apostam em projetos de desenvolvimento mais arriscados, quando a desconfiança toma conta, todos voltam ao “porto seguro financeiro” – o dólar e os títulos do governo americano.

  • Organizando as idéias:

Estávamos a 200 km/h em um trem carregado e descendo uma ladeira de serra.

Carvão para locomotiva não faltava e as paisagens eram bonitas. Os poucos que tentaram nos avisar de fora, não eram ouvidos, afinal, o ar condicionado estava ligado e as janelas bem fechadas.

As estradas antigas, cheias de curvas, não condiziam com a modernidade dos novos trens velozes e robustos. Quando uma curva acentuada apareceu e o maquinista freiou repentinamente, todos nós fomos arremessados sem entender o que estava acontecendo.

O trem não parou e já voltou a acelerar, mas o susto ficou.

Será que vamos levar o medo de andar de trem para sempre, esquecer rápido do susto e apreciar a paisagem novamente ou vamos aprender que trens rápidos e modernos não devem andar em ferrovias antigas?

Trens, sempre irão modernizar-se, é inevitável. Mas e as ferrovias, irão também e na mesma velocidade?

Por André Fabre Ballalai Ferraz

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Comentários (4)

André, ficou demais! Parabéns!

André, parabéns pelo artigo! Está sucinto e de fácil entendimento

Bom.

Gostei.

Aeee André (Vaca), falando quiném gente grande hein!!!
Parabéns, gostei do paralelo, só falta adicionar as analogias de Reynolds.

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