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Espelho, espelho meu

Publicado em: 09-02-2010 | Por: Jany Vargas | Em: Comportamento

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Temos em casa vários gatos, castrados, vacinados, alimentados. De vez em quando chegam novos gatos vindos do mato. Há pouco tempo chegou uma gatinha muito brava, com quatro filhotes muito ariscos. Ela foi tomando posse e agora já passa a maior parte do tempo dentro da casa, na lavanderia, perto da comida.

Quando alguns dos legítimos moradores, como eu, ou os outros gatos oficiais se aproximam, ela, lá de baixo do seu mini tamanhinho, faz aquela cara de má e um barulho muito agressivo.

Nós gente, nós gatos, não temos como entender porque ela se relaciona conosco dessa forma tão rude. Podemos deduzir que ela foi muito bem instruída por sua mãe de que o mundo é hostil, as pessoas e os outros gatos são ameaças. E ela vai pela vida afora usando essa régua para medir todos os que estão por perto. Suponho então que o “aqui fora” é uma projeção do seu mundo interno, do mundo criado por ela a partir das informações que teve quando pequena.

Como não sou psicóloga e estou usando o termo Projeção que é usado na Psicologia, fui pesquisar e li que para os psicanalistas, Projeção é quando temos sentimentos que não aceitamos, que nem sabemos que temos e aí projetamos nos Outros. Por exemplo: alguém gostaria de namorar muitas pessoas, mas tem uma moral rígida que não permite tal comportamento, então fica criticando pessoas que ela julga serem promíscuas.

Tenho frequentado um Grupo de Mulheres. Na primeira reunião, a terapeuta pediu que contássemos das nossas avós maternas, paternas e das nossas mães. Ouvindo as histórias pensei: “Ai meu Deus, o que que minha neta vai contar de mim? Ou seja: O que que eu estou fazendo da minha vida?!!!”

Nos relatos que ouvi percebi também uma espécie de padrão que quem contava tinha identificado nos seus parentes. Por exemplo: “Meu avô era muito rico, perdeu tudo e aí…” ou “Minha avó era muito ciumenta e por causa disso…” Padrões fáceis de se identificar para quem está fora observando, mas muitas vezes invisíveis para quem é o dono deles!

Com isso em mente me coloquei na procura de descobrir quais são os meus padrões. Para isso venho mapeando minhas reações. Descobri que sou muito adaptativa e também malandra: Me adapto, mas se não concordar com a situação com a qual estou me adaptando, desrespeito silenciosamente.

Um dia acordei e tive a nítida sensação de que estava na casa dos meus pais e não na minha atual. Percebi que levantava os ouvidos tentando perceber tensões nas falas que ouvia para poder ir correndo colocar panos quentes. Notei também que sou boa em me esgueirar, em ficar nas beiradas. Evito responsabilidades e não finco o pé no chão. Não crio expectativas e não espero nada de ninguém, por isso nunca me decepciono, mas por outro lado não me deixo afetar e aí que, de vez em quando, aparece uns vírus no computador e da indiferença pulo para a obsessão.

Enfim, tanto quanto a gatinha lá de casa, sou refém de uma estrutura que criei para mim, de um olhar para o mundo que muito aos poucos percebo que tenho. Ela, gatinha, se fosse na terapia diria: “ Dr, as pessoas são muito esquisitas, sempre estão com cara de medo ou raiva quando olham para mim”.

Há quem diga que estamos aqui para evoluir, que nosso Planeta é uma escola. Nesse sentido, nossos professores são as pessoas que nos incomodam, que despertam reações que não compreendemos bem. Elas revelam, refletem partes nossas que estão escondidas. São espelhos. Podemos olhar para esses nossos espelhos e colocar culpa neles ou podemos agradecer a oportunidade de enxergar aquilo que estamos projetando. Amanhã tenho hora marcada na terapia, vou levar a gatinha!

Por Jany Vargas

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