Conta amarga
Publicado em: 11-01-2010 | Por: Ricardo Augusto Lombardi | Em: Comportamento
Tags:Comportamento, Ricardo Lombardi
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Passou o dia contando os minutos até o final do expediente. Foi dramático. Para cada minuto que passava, parecia demorar dois. Às 18h em ponto, saiu correndo para tentar não ficar preso no engarrafamento. Doce ilusão. Até chegar na via expressa foram 15 minutos de anda, para, anda, para. E quando finalmente entrou nela, por instantes, sentiu-se aliviado, o tráfego finalmente estava livre.
Não durou muito até surgir a primeira curva. Um mar de lanternas vermelhas denunciava que lá na frente, nada mais andaria.Não teve dúvidas. Pegou a primeira entrada e fugiu para o cinema mais próximo. Como a sessão era um pouco mais tarde, aproveitou para dar uma volta e jantar por ali mesmo.
Havia exagerado nas guloseimas durante toda semana e preferiu optar pela salada mexicana com molho de guacamole. Pediu um chopp. Veio estupidamente gelado. Entre um gole e outro, apreciava o casal da mesa ao lado, que por sinal, ainda não era um casal, mas pretendiam sê-lo. A troca de olhares, o jeito como ela arrumava o cabelo sugeria que sim, ela queria conhecer melhor o candidato. O rosto dela ele conseguia enxergar, o dele, só se fosse dotado de total indiscrição e virasse a cabeça ao lado.
A salada veio rápido. Não na quantidade que imaginava. Mas a cada mordida, uma surpresa de sabor. O perfume do molho aguçava o paladar. Ainda de ouvido na conversa da mesa ao lado, aproveitava para percorrer o olhar para outras mesas ao lado. Mas não achou nada que lhe fizesse paralisar a procura.
Olhou no relógio e notou que faltava pouco para o início da sessão. Pediu a conta. Quando conferiu a soma, teve uma surpresa. O valor total era igual ao seu dia e final do ano de nascimento. Lembrou de uma lenda urbana. Quando isso acontecesse, a pessoa teria apenas mais 24 horas de vida.
Por um momento, ficou um pouco desconfortável, mas ignorou a crença e balançou a cabeça entendo que pensava uma grande bobagem. Pagou a conta e desceu ao banheiro. Notou que estava transpirando mais que o normal. Jogou um pouco de água no rosto e voltou apressadamente para a entrada da sala.
Era nítido seu desconforto. Aquela superstição estava tomando conta de todos seus pensamentos. A ponto de não prestar atenção na trama do filme. Olhava para um lado, para outro e pensava o que aconteceria se morresse ali, naquela hora, no meio de todo mundo. Resolveu deixar de lado e passou a prestar atenção no filme.
Minutos depois, começou a notar um incômodo no braço esquerdo; uma leve dor que insinuava subir para a nuca. Voltou mais uma vez o pensamento para a maldita superstição. E a dor, que o pegou de surpresa não o abandonou até o final da sessão. Nem sequer conseguiu mais prestar atenção no filme.
Só tinha pensamentos mórbidos agora. Estava certo que havia sido amaldiçoado, que seu dia havia chegado. De repente, sentiu vontade de ligar para a família, para os amigos e até para aquela que não havia correspondido ao seu amor. Já ficava imaginando como seria seu enterro, quais pessoas compareceriam, quais ignorariam.
Apalpou os bolsos na procura de um papel para escrever um bilhete de despedida, mas foi em vão, não encontrou nenhuma superfície que lhe servisse. Foi embora. No caminho para a casa, começou a relembrar todos os momentos marcantes de sua vida, apressado e ansioso, não queria esquecer de absolutamente nada, pois estava certo, à medida que o incômodo no braço aumentava, que sim, seria seu último dia. Não queria deixar nada em branco. Queria sim, ao mesmo tempo chegar rápido em casa, pois acreditava que morreria lá, mas também atrasar o trajeto para ter tempo de não deixar nenhuma lembrança importante para trás.
Já em casa, queria deitar-se o mais breve possível em sua cama. Queria dormir logo, pois se morresse dormindo não sentiria dor, nem sequer sofreria. Não quis nem escovar os dentes porque chegou à conclusão que isso não lhe seria mais necessário. Não tomou banho. Tirou todas as roupas e deitou-se. Recusou as cobertas. O frio seria muito em breve, a temperatura que dominaria seu corpo até a decomposição, pensou.
O silêncio tomou conta do quarto. Não havia uma só fresta de luz. Janelas e cortina fechadas. Ouvia somente o deslizar dos ponteiros do relógio despertador. A madrugada veio com aquela neblina peculiar. Na rua, já não se ouvia mais nenhum carro passar. E finalmente, dormiu.
Na manhã seguinte acordou no chão. Não entendia absolutamente nada do que estava acontecendo. Não era mais seu quarto, nem tampouco sua casa. Não reconheceu nenhum móvel ao seu redor. Ouvia no fundo uma voz de criança, que a cada segundo, parecia se aproximar cada vez mais:
-Mamãe o gatinho já acordou, posso dar comida pra ele?
Por Ricardo Augusto Lombardi


















Adorei! Bem kafkaniano… Vc podia fazer uma série…
Obrigado, Paula.
Muito Kafkiano mesmo!
Eu não tinha o final da história. Fui assistir a um filme no cinema (assim como a personagem da história) e aí surgiu esse final, baseado no final do filme que vi, o “Ervas Daninhas”.