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Os efeitos das “raízes do Brasil” na sociedade atual

Publicado em: 16-11-2009 | Por: Marcelo Levy Perrucci | Em: Comportamento

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Imperador-223x300O livro “raízes do Brasil” de Sergio Buarque de Holanda tenta explicar o brasileiro com base nas nossas raízes. Ele afirma que antes de analisar o brasileiro, deve-se analisar o povo ibérico, uma vez que este já se distingue de forma evidente do resto do povo europeu. Ele diz que os ibéricos tendem a ser mais personalistas, (dão demasiada importância ao indivíduo) e que por isso suas instituições são fracas – segundo esta linha de raciocínio, uma instituição nunca poderá valer mais que um indivíduo –, e menos trabalhadores. Ele afirma que ao invés disso os ibéricos são aventureiros – homens que preferem a vida fácil de um nômade a ter que arar a terra e esperar pelos resultados.

A diferença entre os brasileiros/ibéricos, os europeus, os americanos e os asiáticos é evidente.

Os europeus em geral se preocupam mais com a sobrevivência, sem grandes ambições. Preocupam-se de ter conforto e estabilidade. Eles vêem o trabalho como necessário à subsistência.

Os asiáticos se assemelham aos europeus, porém primam pela honra de cada indivíduo e pela honra do trabalho. Eles vêem o trabalho como complemento do indivíduo – até mesmo como definição do indivíduo.

Os americanos vêem o trabalho como uma possibilidade para enriquecer. Esta é, com certeza, a principal diferença entre os brasileiros e os americanos. Enquanto um americano quer ficar rico trabalhando (trabalhar para ficar rico), um brasileiro sonha com ficar rico e parar de trabalhar.

Essa diferença vem possivelmente da forma de colonização dos dois países. A república dos EUA foi construída pelas mãos dos imigrantes e para seu benefício próprio. Logo, eles queriam trabalhar para conseguir aquilo de que necessitavam. Enquanto isso, a constituição de cidades no Brasil só se deu por mera necessidade durante a exploração. Os escravos trabalhavam enquanto os senhores descansavam. Isso fez com que no Brasil a imagem do trabalho manual fosse inferiorizada. O trabalho intelectual por sua vez era idolatrado.

Esse repúdio ao trabalho manual continua vivo na nossa sociedade.  Até a fixação de mandar em alguém continua presente –os estagiários são prova disso. Quem já não ouviu alguém mais velho nos dizer “estude bastante para entrar em uma faculdade, senão você vai acabar virando lixeiro”. Sei que dizem isso com boas intenções, mas tirando o salário mais baixo qual é o problema em ser lixeiro? Para muitas sociedades – principalmente os japoneses – nenhum, mas para nós representa o fracasso, pois nos remete às funções dos escravos.

Até hoje, mandar é melhor que fazer. A frase “se você quer uma coisa bem feita, faça você mesmo” não se aplica no Brasil. Aqui o certo seria “se você quer uma coisa bem feita, pague para alguém fazer e reclame até ficar bom”.

Existem coisas boas resultantes da nossa colonização pelos portugueses. O racismo ainda existe – de ambos os lados devo acrescentar –,mas o Brasil foi um dos lugares onde ocorreu a maior interação inter-racial. A miscigenação tanto populacional quanto cultural foi intensa. Isso pode – e deve – ser visto como um ponto positivo.

Atualmente, o Brasil está novamente importando elementos culturais de outras nações. A invasão cultural estadunidense é inegável, mas a sua aplicação está sendo adaptada ao Brasil. Por exemplo: os estadunidenses em geral não respeitam muito funcionários que só conseguem colocações em empresas devido aos seus contatos. Até algum tempo atrás, no Brasil também aqueles que tinham QI (Quem Indicou) também eram mal vistos. Atualmente, o culto ao indivíduo e o sistema ibérico de relacionar-se falaram mais alto. Hoje temos até expressões chiques (Networking) para o que antes era mal visto.

Longe de ser puritano, apenas creio que isso compromete a eficiência das empresas. Enquanto empresas europeias já fazem concursos para prover vagas, aqui ainda estamos sujeitos aos critérios subjetivos. Como já fizemos antes com a escravidão e com a democracia, estamos atrás do resto do mundo e qualquer avanço não é um avanço e sim uma distorção disfarçada de avanço. Nossa sociedade continua sendo a sociedade dos favores. Porém esses favores não são dados de forma altruísta e sim de forma extremamente egoísta. Favores são quase como uma aplicação, e, em uma necessidade, basta cobrar.

Marcelo Levy Perrucci

Obs.: Chega a ser uma contradição que a expressão consagrada pelo uso para falar daqueles que são provenientes do Brasil seja Brasileiros. A terminação ‘-eiro’ no português serve para designar profissões (relojoeiro, pedreiro, faxineiro, empreiteiro etc.). A palavra vem do tempo que quase não existiam habitantes que não os índios no Brasil. Brasileiro então era aquele que trabalhava no Brasil ou com pau-brasil. Digo que é uma contradição, pois como já foi dito os brasileiros sentem verdadeiro repúdio ao trabalho – principalmente o manual.

Obs. 2: Esse texto deve funcionar como análise geral da sociedade. Sei que exceções existem em bom número. Porém, como os textos históricos, este propositalmente tenta explicar a sociedade em vez dos indivíduos que a compõe.

Por Marcelo Levy Perrucci

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